22/01/2009

Para Maggie(minha adorada cadelinha)

As ouço por perto
Patinhas com pisar de leve
Ai vem Maggie
Alegrar minha vida. É certo.

Junto a um arfar de felicidade
Ela vem ao meu encontro
Esse pequeno ser
De travessura e bondade

Olhos negros e cintilantes
Agora fazem aquele pedido
Com seu nariz gelado e úmido
Quer carinho por uns instantes

Momentos como esse
Nunca terão fim
Com seu carinho e fofura
Está eternizada em mim
Gabi Faria
À Vida
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.


Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

[Marina Tsvietáieva]
(1924)
SILENTIUM

Ainda não é nascida.
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.


O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.


Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!


Volve … poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com vida coabite!


[Ossip Mandelshta]

(1910)

AMAR: QUEIMAR AMARRAS
Na tempestade tátil da mão
ao vento susurros certeiros
cuspir com fogo de dragão
e sabor de nevoeiros...

(Por Fabio Rocha - www.fabiorocha.com.br - do livro NO FIM, COMEÇO)

28/12/2008


Soneto pela concentraçãoUma poesia! Uma poesia!
Meu reino por uma beleza...
Mamãe tanto me pedia
Para acabar com a tristeza

Toc, toc, toc. Sou eu, mente!
Vem concentração, por favor.
Tão intransigente...

Palavras boas acabaram
Por fugir de mim?
De minhas viagens partiram
Do início ao fim

Voltem aqui,
Meus pensamentos! Seus voláteis!
Não... Já os esqueci.

Gabi Faria

26/12/2008


Um soneto para o vazio
Uma mente sem inspiração
É carente de espaço
Bem usado no compasso
De vida de ilusão

Já escreveu bem
Vácuo da alma sumia
A razão vinha do além

Mãos cheias de dificuldade
Amaldiçoam papel e caneta
Agora tão sem utilidade

Olhos rabiscados
Uns traços sem sentido
Incolores, desencantados
O encanto havia sumido

O vazio a tinha possuído...


Gabi Faria

23/12/2008


CARTA AO VIZINHO CHINÊS


Deve ser gêmea, senão a mesma,
é a de ontem, é igual e se disfarça
numa metade escurecida
a lua
que neste momento ronda
como eterna sentinela
a trazer fosca iluminação
sobre a caixa de fósforos,
sobre os palitos
que conhecerão em chamas - um sol.

(Existe o inverso sentido,
o sol iluminando a lua,
e a lua iluminando os pedaços de sol
guardados nos fósforos).

Deve ser sem dúvida a mesma,
a lua que amanhã olhará
um desconhecido
que neste momento mora na China
e faz uma vigília qualquer
sobre o arroz.
(Temos a mesma lua,
somos cúmplices destas iluminações).

Já chega a ser mais do que gêmea,
é exatamente a mesma,
quero simplificar
a lua que volta
amadurecida,
e não estou mais só apenas
olhando a lua,
e seria como se ela me olhasse
e de outras existências
ela, a lua, me permitisse conhecimentos.

Assim sendo
ó desconhecido chinês
não sei o teu exato tráfego
entre esta lua,
e há uma grave denúncia,
uma sonora, uma metamorfoseada denúncia
quando a lua
vem nos dizer que apenas passa
sempre por uma frágil rua
que chamam mundo,
uma única rua descalça
que é a mesma
que existe na Grande Muralha,
que é a mesma
por onde o carteiro
chega a minha porta.
A lua nos faz um só acontecimento.

Assim sendo,
ó já visto chinês,
peço que também
coloques a tua mão sobre a nossa lua.

Tenho olhado esta lua,
venho pensando nos grãos de arroz,
e no instante em que morreu
a tua última imperatriz
de pequenos pés.

Tenho pensado numa embarcação
cheia de muitos,
muitos
antepassados olhando a lua enquanto era uma noite
uma espessa noite,
até que todos eles reunidos
pudessem vir me trazer apenas dois olhos
para olhar esta lua.

Tenho visto tuas porcelanas,
tenho visto algo do azul
desbotando
e sendo devorado por dragões.

Sei,
deves gostar de pingue-pongue
e o mar, o mar
é uma grande mesa quando sobre as águas
passa a lua, - uma bolinha
sobre as águas
e que vai
e volta,
e que vai
e volta.
Estamos assim dentro de um jogo.

Por fim já vizinho,
conhecidíssimo
e amigo chinês -
o jogo é muito antigo.

Olhes a tua lua,
olhes a minha lua,
jogues para cá,
jogarei daqui a tua lua.

Fico aqui pensando em milenares dragões
que querem devorar
o mar,
o arroz,
e a nossa única lua.

[Luís Sérgio dos Santos]

O PERIGO DO DRAGÃO

Me falaram do perigo do dragão
o homem não consegue se livrar da castidade
da religião
da lei imposta da moralidade.

Dentro de mim mora o dragão
da natureza
espontâneo e suficiente
e por mais que me obriguem a fugir
não há nada que me tente
tanto.

Tem o caráter do fogo
o nervo, o temperamento
do proibido
e rompe a linha do extremo
além do sentido.

Dança o movimento sublime
ultrapassa o cerco
o limite, o crime, o desatino
além da nossa dualidade
na dimensão perigosa
de onde se extrai o destino.

Tudo está contido em tudo, cada coisa
se transforma em outra
contínuo o fio da ação
cada um carrega em si o seu oposto
a vida é o germe da destruição.

[BRUNA LOMBARDI]

O SENHOR YÈ GOSTAVA DE DRAGÕES



«Zi Zhãng foi visitar o senhor Ãi de Lu mas, como este último se tivesse recusado a

recebê-lo durante sete dias, resolveu deixar um recado ao cocheiro: "Foi porque ouvi

dizer que o teu senhor aprecia os letrados que vim de tão longe para o ver. Atravessei

orvalhos e geadas, sofri com o pó e a sujidade e caminhei tanto que os meus pés se

encheram de bolhas. Não me dei descanso para ver o teu senhor e, no entanto, há sete

dias que ele me trata sem cortesia, recusando receber-me.

"O apreço do teu senhor pelos letrados assemelha-se ao gosto do senhor Yè pelos

dragões. O senhor Yè gostava muito de dragões: gravou um dragão no seu gancho,

gravou um dragão no seu cinzel e decorou todos os seus quadros com dragões. Mal

soube disto, o dragão celeste desceu até à sua casa. Porém, quando o senhor Yè o viu a

espreitar pela janela com a cauda à mostra na sala, desatou a fugir. Ficou sem pingo de

sangue, muito pálido.

"Enfim, o senhor Yè não gostava de dragões. Gostava do que se parece com um dragão

mas não é um dragão.

"Ouvindo dizer que o teu senhor aprecia os letrados, vim de muito longe até aqui para o

visitar. No entanto, durante sete dias, ele tratou-me sem cortesia e não me recebeu. O teu

senhor não aprecia os letrados mas apenas aqueles que, parecendo letrados, não o são.

"No Shi-jing lê-se: "Não é possível esquecer o que o coração encerra!" É por isso que eu

me atrevo a deixar esta mensagem.»


LIÚ XIÀNG

(71-6 a. C.)

("O Rosto do Vento Leste - doze textos de prosa clássica chinesa")

[Tradução de Cláudia Ribeiro e Zhang Zhèng-chun]
Dragão das Eras



Entidade magnífica
Alma punidora
em 1800 anos de liberdade
e caos que levará ao fim
nascente do longínquo oriente

Ódio em essência
forjado pela humanidade
em desenfreada jornada
rumo ao destrutivo destino
predecessor de uma juventude

Encarnação da supremacia
Dominação em seu punho
e sagrado sangue
em pulsante força imperial

Forças contrárias
que impedem catástrofes
O fogo do dragão é aprisionado
mas jamais extinto
na perduração do poder

Tempo de descanso
almas em serenidade
A chama enfraquecida aguarda
o tempo que fortalece
um futuro ardente
de fogo, ódio e fúria
em predestinada era de caos
E o Dragão Orochi
abrirá seus olhos uma vez mais.
[Fabio de Oliveira]

19/12/2008


FÁBULA PARA ANFÍBIOS
Para Nícolas e Aléxis

o menino menor trouxe na mão o ciclone
o maior, o dragão afônico
ambos queriam um cometa que levasse a princesa
ao nocaute
ora, não sei cantar estrelas
embora adivinhe a partitura
o menino maior ensina
a construção de sistemas paraconsistentes
com bolas de ping-pong
o menor desmancha cidades e
esculpe doces de malvavisco
a retórica se desfaz com o dente partido
melhor proteger os olhos de uma grande verdade
que do sol
talvez evitar que o porta-aviões no armário
invadam a geladeira
se não é possível prever a trajetória de uma partícula
então uma bolha possa explicar o conceito de poesia
disse bula, não importa
nenhuma palavra sobrevive ao caos
nem a palavra caos
dois meninos cruzam o arco da desesperança
manobras indecisas na órbita do sorvete
sinais de fenda no tempo, sob o band-aid
todas as partes, gravetos ou conchas, se encaixam
na lógica desse abraço


[Reynaldo Damazio]

17/12/2008

Os Dragões não conhecem o paraíso
Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu.
Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele estava comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs da ausência dele, pensei assim: os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderam no caos da desordem sem nexo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.

Essa imagem me veio hoje pela manhã quando abri a janela e vi que não suportaria passar mais um dia sem contar essa história de dragões. Gosto de dizer, tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade.

Como eu dizia, um dragão jamais pertence a nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja um unicórnio, salamandra, elfo, sereia ou ogro. Eles não dividem seus hábitos. Ninguém é capaz de compreender um dragão. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro) sempre batem a cauda três vezes, como se estivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja a sua maneira desajeitada de dizer: que seja doce.

"Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte."
[Do Livro "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", de Caio Fernando de Abreu]