21/01/2010


Inocência
De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
Ai! dos Poetas deste mundo!

(Pedro Homem de Mello)

20/01/2010


Aves sem ninho, aos filhos do Haiti

Tinta escura de Goya
Um painel
Que ele pinta no céu
Escombros em nanquim
Borrado
Por lágrimas da primavera
Sobre despojos e dor
Sobre fome e torpor
Na arena
Despedaçados pelo touro
Que alavancou a placa tectônica
Os filhos do Haiti se debatem
Peças de um jogo obsceno
Onde não existe decência
Clemência
Peões de carne
Que os poderosos manejam
Visando uma glória gangrenada
Pelo Sangue dos pequeninos
E a voz do pai na memória
Soterrada
Os filhos do Haiti em dor
Naquela poesia do Guerra Junqueira
Que cai com uma lágrima incolor
“Pobres de pobres são pobrezinhos,
Almas sem lares, aves sem ninhos...”

(By Bárbara Lia)

15/01/2010


Sonho

Minha alma flutua
No céu, mar, ar
Totalmente nua
À luz do luar

Depois de satisfeita
Em uma estrela
Adormece, se deleita

De manhã, corre pela areia
Saúda o astro rei que brilha
Do Universo, filha
Posa em uma pedra, corpo de sereia

À tarde, volta sorridente
Dá as mãos à minha mente...

... de um sonho despertei!

Gabi Faria

14/01/2010




Encontro
o sol
piano suave
entre árvores

fogo
as asas
do pássaro

passos lentamente
braços
disfarçadamente
abertos

minhas mãos
cantando
sua pele

o suor
me seca
qualquer treva

(Fabio Rocha - www.fabiorocha.com.br)

12/01/2010




AMOR
Na véspera de ti

eu era pouca

e sem

sintaxe

eu era um quase

uma parte

sem outra

um hiato

de mim.



No agora de ti

aconteço

tecida em ponto

cheio

um texto

com entrelinhas

e recheio:



um preciso corpo

um bastante sim.
[By Maria Esther Maciel]

01/01/2010


Asas
Quero asas de borboleta azul
para que eu encontre
o caminho do vento
o caminho da noite
a janela do tempo
o caminho de mim

(By Roseana Murray)

18/12/2009


Bom... para o ano que termina vou dar a nota máxima.. Porque fui feliz.. Não pedi muito e recebi bastante... Só o fato de ter aparecido alguém tão especial.. Já valeu o ano.. E o resto levei.. Estou aqui... Para 2010! Tudo o que temos é porque merecemos.. E eu mereci o melhor! Então... Então fui boa menina!!!

Para vocês que visitaram o meu blog comentando ou não... Desejo que neste Natal cada um procure doar um pouco mais de si. Não somente em coisas materiais, mas principalmente em gestos de carinho e solidariedade para com o próximo. Abra seu coração... Sonhe... Deseje... Ame... Sorria... Seja feliz voltando a ser criança...

Desejo-te um Natal cheio de paz, amor e felicidade. E que você realize seus sonhos... Mas principalmente que continue a sonhar... Sempre... Sempre... Sempre!!!

Feliz Natal!!! Feliz 2010!!!!!Bjaum! Gabi

"O Ano Novo ainda não tem pecado:É tão criança...Vamos embalá-lo...Vamos todos cantar juntos em seu berço de mãos dadas,A canção da eterna esperança.” (Mário Quintana)

17/12/2009



2010
Caminhei na água
sobre círculos que ampliavam
a vastidão do mundo.

Fez-se um rastro profundo
onde a luz tremia...

Se a manhã estava fria de gente
amanhã será de novo:
amanhecerá de novo
o mesmo, diferente.

(Por Fabio Rocha - www.fabiorocha.com.br)

16/12/2009



Fleur d'automne
Amanheci outono...
Um ar gélido toca minha face efêmera
e colhe, cálido, meu amor eterno...
Sou a magia imperfeita
da libertação dos silêncios da alma

Entrego meu ser às estrelas
e corro livre junto ao vento
perseguindo as vozes da lembrança
para resgatar minha história perdida no tempo

Busco versos encantados e atemporais
querendo saciar meu desejo surreal
de fazer encontrar Sol e Lua

Envolta nos mistérios cavalgo pelos sonhos,
velejo nos mares de tua saudade
e passeio leve pelo teu pensamento

Sendo filha da vaga imaginação,
danço em tua alegria, sou parte de tua emoção
e caminho serena na palma de tuas mãos

Brincando de ser poetisa,
escrevo meu nome em tua vida
instalo-me no aconchego de teu coração
como brisa encantante viajando pelos perfumes do ar

Calo meu olhar e guardo a noite...
Sou inteira flor das suas fantasias
meus lábios pétalas desabrocham beijos
na imagem querente de tua boca terna...




[By BruneLLa França]

14/12/2009


"A Descoberta do Mundo"

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

(Por Clarice Lispector em a Descoberta do Mundo)

09/12/2009



Te amo de amor
Te amo de amor
A qualquer hora
O dia inteiro
Do jeito que for

Te amo simplesmente
Sem mistério, vícios ou pudor

Amo o amarelo dos seus olhos
Sol poente em plena madrugada
Suas melodias
Suas trilhas

Amo sem precisar ser amada em retribuição
Sem hora marcada
Sem demora

Amo na cama e no chão
No meio da rua e na calçada
Debaixo de chuva
Sóbria ou embriagada

Te amo de amor
E não há nada que você possa fazer
Nem contra ou a favor

(Mônica Montone)

07/12/2009



Porto Solidão

Os pés tocam o mar
Mas o pensamento, ah...
O pensamento navega pelo oceano.

A maresia anuvia a razão
É quando o coração fala
E a alma vagueia
Onde está o porto onde ela ancorava?

Os dedos dos pés seguram a areia
As asas da alma, a esperança do encontro
Vejo outros barcos passarem
Vejo outros portos chegarem
Mas nenhum me parece seguro.

A luz de um farol distante
Lembra-me de seus olhos
E ainda que me doa a saudade
Eu continuo seguindo...

[By BruneLLa França]